História para dormir: O Flautista de Hamelin
O problema começou com um barulho.
Não era um barulho qualquer — era um roer constante, miudinho, insistente, como se a própria casa estivesse comendo a si mesma por dentro. Primeiro veio da despensa. Depois das paredes. Depois… de todo lugar.
E, quando deram por si, Hamelin estava tomada por ratos.
Ratos nas ruas, nos telhados, nos armários. Ratos que corriam em fileiras, que invadiam as panelas, que não tinham medo de nada. Nem de vassoura. Nem de grito. Nem de gato (coitado do gato… que acabou fugindo no segundo dia).
— Isso não pode continuar! — reclamou o padeiro, sacudindo um saco vazio.
— Já não sobra um grão! — choramingou a costureira.
— Nem um pedacinho de queijo… — murmurou o prefeito, com um rato pendurado na própria manga.
E foi então que alguém bateu à porta da prefeitura.
Toc.
Toc… toc.
Silêncio...
Quando abriram, lá estava um homem estranho. Alto, magro, com um casaco colorido que parecia feito de retalhos de festa. E, nas mãos, uma flauta.
— Ouvi dizer — falou ele, com um meio sorriso — que vocês têm um pequeno problema.
Pequeno.
O prefeito arregalou os olhos.
— Pequeno?! — apontou para a rua, onde os ratos passavam como um rio cinzento.
O homem deu de ombros.
— Para mim, é pequeno.
E então levantou a flauta.
— Eu posso resolver. Mas não de graça.
— Quanto? — perguntou o prefeito, rápido, já meio desesperado.
O homem pensou. Ou fingiu pensar.
— Mil moedas de ouro.
Um burburinho percorreu a sala.
Era muito dinheiro.
Mas… e os ratos?
O prefeito respirou fundo.
— Está bem. Se você livrar a cidade disso, receberá seu pagamento.
O homem assentiu. Simples assim.
Virou-se. Levou a flauta aos lábios.
E começou a tocar.
A melodia era leve… curiosa… um pouco engraçada. Subia e descia como se estivesse brincando de esconde-esconde. E algo estranho aconteceu.
Os ratos pararam.
Todos...
Um, dois, dez, cem… milhares. Eles ergueram as cabecinhas, como se estivessem ouvindo um segredo.
E então começaram a seguir o som.
Primeiro devagar.
Depois em fila.
Depois todos juntos.
Era um desfile. Um cortejo de bigodes e rabos, serpenteando pelas ruas, atrás do flautista que caminhava calmamente, tocando sem parar.
— Você está vendo isso? — sussurrou alguém.
— Estou… — respondeu outro, sem piscar.
O homem saiu da cidade. Cruzou a ponte. Seguiu até o rio.
E, sem hesitar, entrou na água.
A melodia continuava.
Os ratos foram atrás.
Um por um.
Ploc.
Ploc… ploc.
Até que não restou nenhum.
Nenhum.
Silêncio.
Um silêncio tão bom que parecia abraço.
O flautista voltou, com os sapatos ainda molhados.
— Trabalho feito — disse, simples. — Meu pagamento.
O prefeito sorriu. Mas era um sorriso torto.
— Ah… sobre isso…
E veja só — (e aqui vale prestar atenção) — às vezes as pessoas fazem promessas quando estão com medo… e esquecem quando o medo passa.
— Mil moedas é muito — continuou o prefeito, ajeitando o casaco. — Podemos pagar… cinquenta.
O flautista ficou quieto.
Não bravo. Não ainda.
Só quieto.
— Foi o combinado — disse ele, por fim.
— Foi o que pudemos pagar — respondeu o prefeito, cruzando os braços.
Silêncio.
O flautista suspirou. Guardou a flauta. Deu meia-volta.
E foi embora.
Mas não muito longe.
No dia seguinte, quando o sol ainda estava bocejando atrás das casas, a melodia voltou.
Diferente desta vez.
Mais doce.
Mais leve.
Quase como uma canção de ninar.
As crianças de Hamelin, uma por uma, abriram as janelas.
— Mamãe… que música é essa? — murmurou um menino.
— Papai… posso ver? — pediu uma menina, já com os olhos brilhando.
E antes que alguém pudesse responder…
Elas já estavam seguindo o som.
Rindo baixinho. Caminhando como quem sonha acordado. Passando pelas ruas, pelas portas abertas, pelas escadas.
— Esperem! — gritou uma mãe.
— Voltem! — chamou um pai.
Mas a música… ah, a música era mais forte.
O flautista caminhava à frente. Devagar. Sem olhar para trás.
As crianças o seguiam.
E a cidade inteira correu atrás.
Coração na boca.
Pés tropeçando.
— Por favor! — gritou o prefeito, agora sem pose nenhuma. — Pare! Nós pagamos! Pagamos tudo!
O flautista parou.
A música cessou.
As crianças piscaram, como quem acorda de um sonho bom.
— Onde estamos? — perguntou uma delas, esfregando os olhos.
E então correram de volta para os braços dos pais.
O prefeito, ofegante, trouxe um baú pesado.
— Aqui estão as mil moedas — disse, quase sussurrando.
O flautista olhou.
Depois olhou para as crianças, agora seguras.
E assentiu.
Guardou a flauta.
Pegou o baú.
E, antes de partir, disse apenas:
— Promessas são como música. Quando quebradas… deixam silêncio.
E foi embora.
Para sempre.
Hamelin nunca mais teve ratos.
E, curiosamente… nunca mais esqueceu uma promessa.
E, naquela noite, a cidade dormiu em paz.
Sem roer.
Sem pressa.
Só o som distante do vento… passando devagar pelas janelas, como uma canção bem baixinha, quase como um assobio.
E nada mais...
Fim.Eai gostou dessa história?
Quer ler mais histórias para dormir online? Acesse nossa listagem e escolha agora mesmo!