João e Maria — Ler história para dormir de coragem e esperteza

Capa da história João e Maria

História para dormir: João e Maria


Era uma noite como outra qualquer quando João acordou — e ali estava o silêncio estranho da floresta entrando pela fresta da janela.

Do quarto dos pais, vinham vozes baixas. Vozes que a gente não deveria ouvir, mas ouve.

João ficou quieto. Respirou fundo. E então chamou baixinho: "Maria."

A irmãzinha virou de um lado para o outro no catre, mas abriu os olhos. Sempre abria quando o irmão chamava assim — com aquele tom de "preciso te contar uma coisa que não é boa".

"Nosso pai vai nos levar à floresta amanhã", João sussurrou. "Longe, longe. E não vai nos buscar de volta."

Maria ficou um tempinho sem falar nada. Depois disse, bem calma, como se tivesse pensando em voz alta: "Então a gente precisa de um plano."

No dia seguinte, enquanto os pais ainda dormiam, João saiu na ponta dos pés. Encheu os bolsos de pedrinha brancas — o tipo que brilha quando a lua bate, sabe? Pequenas, redondas, frias na mão.

Maria esperou na porta, os braços cruzados, os olhos atentos.

"Pronto", João disse.

"Pronto", ela concordou.

E foram.

A floresta começou densa logo ali, na beira do caminho. As árvores eram antigas, do tipo que cresceu antes de qualquer coisa, e faziam um farfalhar que parecia conversa de gente. O pai caminhava na frente, a madrasta atrás, e as crianças no meio — João soltando uma pedrinha de vez em quando, sem que ninguém visse.

Tinc. Tinc. Tinc.

Pedrinhas brancas no chão escuro.

Quando pararam para descansar numa clareira, os pais disseram "aguardem aqui, vamos buscar lenha" — e foram embora.

E não voltaram.

Maria olhou para o irmão. João olhou para a irmã. A floresta em volta deles murmurou, como se achasse graça.

"Bom", disse Maria. "Já sei o caminho de volta."

Esperaram até a lua nascer. Aí as pedrinhas brancas acenderam no chão, uma por uma, como um rastro de estrelas caídas. João tomou a mão de Maria, Maria tomou a mão de João, e os dois seguiram a trilha iluminada — passo a passo, com calma, sem correr.

Chegaram em casa com o frio da madrugada nos calcanhares.

O pai ficou pálido de ver aqueles dois na porta. A madrasta torceu o lenço nas mãos. Mas deixaram as crianças entrar, claro que deixaram.

Só que alguns dias depois... a mesma conversa voltou ao quarto dos pais.

"Desta vez não tem como", João ouviu.

E era verdade: desta vez não tinha pedrinha nenhuma, a porta estava trancada por dentro.

Entraram na floresta de novo, João marcando o caminho com farelos de pão, que era tudo que tinham. E a floresta, ora, a floresta adora uma brincadeira — os passarinhos comeram os farelos tão rápido que quando João olhou para trás, o chão estava limpo.

Não tinha rastro.

Não tinha caminho.

Tinha só árvore, e silêncio, e a tarde virando noite.

Maria não reclamou. João não chorou — pelo menos não ali, na frente dela. Os dois andaram até as pernas ficarem pesadas, e então pararam debaixo de um carvalho gordo e dormiram encostados um no outro, como dois pãezinhos no forno.

De manhã, um pássaro branco os acordou. Branco, branco, do tipo que não existe na floresta de gente normal — e ele pousou num galho e ficou olhando para as crianças com aquele jeito de "me sigam".

Então eles foram.

E chegaram.

Você quer saber o que tinham à frente?

Uma casinha. Mas que casinha, gente. As paredes eram de pão, o telhado era de biscoito, as janelas eram de açúcar transparente. Cheirava como padaria de domingo, mas em tamanho de floresta inteira.

João tocou na parede com a ponta do dedo.

Lambeu o dedo.

"É real", disse ele, com olhos do tamanho de saucers.

Maria já estava mordendo o telhado.

E então a porta abriu — e ali estava ela. Velha. Curvada. Com um sorriso de quem estava esperando visitantes há muito tempo.

"Que fome que vocês devem estar, meus lindos", a velhinha disse. "Entrem, entrem."

Ela era doce demais. Serviram o jantar, a cama era macia, os lençóis cheiravam a lavanda. Só que naquela noite, olhando para o teto escuro, Maria sentiu aquela pulga atrás da orelha. Aquela sensação de que coisa boa demais pede cautela.

E no dia seguinte, quando João foi trancado num quartinho — "pra engordar antes de virar jantar", a velhinha admitiu, sem cerimônia — Maria soube que a hora era agora.

A bruxa estava aquecendo o forno. Assobiava baixinho, como se fosse uma tarde normal.

"Menina, veja se está quente o suficiente", ela mandou.

Maria coçou o queixo. Olhou para o forno. Olhou para a bruxa.

"Eu não sei como se vê", disse, toda inocente. "A senhora pode me mostrar?"

A bruxa bufou — que menina boba — e se curvou para espreitar o forno.

Foi o que bastou.

Maria empurrou. A porta fechou. A bruxa berrou, mas o berro durou pouco.

E então Maria abriu o quartinho onde João estava preso, que pulou para o corredor feito mola.

"Como você—"

"Depois eu explico", ela disse. "Agora vamos."

Acharam baús cheios de pedras preciosas na casa da bruxa. Encheram os bolsos, os aventais, tudo o que pudesse carregar. Saíram correndo pela floresta — e dessa vez, um pato branco foi aparecendo de trecho em trecho, atravessando rios, mostrando o caminho.

E a floresta foi ficando menos densa, mais clara, mais gentil.

E a fumaça de uma chaminé foi aparecendo entre as árvores.

E a porta de casa estava de par em par, com o pai parado na soleira como quem não sai de lá desde que os filhos sumiram.

A madrasta tinha ido embora, disseram. Tinham ficado só os três — o pai, a culpa, e a esperança de que um dia os filhos voltassem.

João e Maria chegaram com os braços cheios de riquezas e o coração cheio de perguntas, mas quando o pai os abraçou, as perguntas podiam esperar.

Viveram bem. Tiveram o suficiente, que já é mais do que muita gente. E Maria nunca mais entrou em casa de desconhecido sem antes sentir aquela pulga atrás da orelha — essa, ela guardou para a vida toda.

E assim termina a história de João e Maria.

Fim.

Eai gostou dessa história?

Quer ler mais histórias para dormir online? Acesse nossa listagem e escolha agora mesmo!